Engole
Há coisas que não nos deixam quando crescemos: elas mudam de forma.
Quando eu era menino, meu pai tinha uma criação de porcos. Éramos três meninos e uma menina. Quando não obedecíamos, ele nos mandava para o chiqueiro, onde ficávamos o dia inteiro, no meio da sujeira e dos grunhidos.
Nosso pai sempre foi rígido. Com tudo. Até com ele mesmo. Nunca nos deu um abraço. Um elogio. Nada.
Sentava-se à mesa na hora das refeições e entrelaçávamos as mãos para as orações. As mãos de minha mãe tremiam. Eu achava que era por causa da chuva, um presságio talvez, porque ela dizia:
“Uma tempestade se aproxima, querido. Eu tenho medo de tempestade.”
Depois entendi que não havia chuva. As mãos tremiam sempre. Principalmente quando meu pai estava por perto.
As mãos dela eram de uma delicadeza áspera, ainda assim cheias de ternura.
Fazíamos as orações e comíamos sempre no mesmo horário. Depois, olhos baixos no prato, bocas ocupadas, mastigando e bebendo em silêncio.
Um dia o silêncio foi cortado.
Minha irmã levantou da mesa sem pedir licença.
Foi dormir com a boca sangrando e o rosto marcado por um hematoma que levou dias para desaparecer.
– Engole o teu choro e peça desculpas agora.
– Mas… mas…
– Engole.
– Des… desculpa, pai…
– Mais alto. Eu não ouvi. Vocês ouviram?
Eu e meus irmãos engolíamos a sopa rala, a seco.
– Não ouvimos. Mais alto.
Não ousávamos contrariar. Se ele não ouvia, ninguém ouvia.
– Des… des… desculpa.
– Suba. Amanhã você limpa o chiqueiro. Em silêncio. E engole esse choro. Se eu te escutar de novo, apanha até desmaiar.
Naquele dia, a sopa pareceu mais rala que o de costume. O pão, feito à tarde, duro como se tivesse sido esquecido ao ar por dias.
Comíamos em silêncio. As orações eram o único momento em que escutávamos nossas próprias vozes.
No dia seguinte, fui procurar minha irmã no chiqueiro.
Meu pai mandou que ela lavasse o lugar, trocasse a lavagem dos porcos.
Os grunhidos eram altos. A imundície permanecia espalhada. Larvas consumiam o resto.
Ela estava encolhida num canto, abraçando os joelhos. Chorava alto, mas ali o choro se perdia entre os porcos.
Era o único lugar onde não precisava engolir.
– Engole…
– Engole…
– Engole tudo…
– Sem cuspir…
– Até o fim…
Anos depois, essas mesmas palavras a acompanharam quando saiu de casa, aos dezessete.
Foi para a cidade.
Engoliu o choro.
Engoliu álcool barato.
Engoliu fumaça.
Engoliu o corpo dos outros.
Engoliu o próprio nome.
Nunca mais voltou.
PS: Esse conto foi criado a partir dessa citação:
“Vede a criança, rodeada de porcos a grunhir,
Desarmada, encolhendo os dedos dos pés.
Chora, não sabe fazer mais nada senão chorar.
Será alguma vez capaz de ficar de pé e de caminhar?”
(Friedrich Nietzsche, in “A Gaia Ciência”)
Se esse texto te atravessou em algum ponto, mesmo que você não saiba exatamente onde, deixa um comentário.
Não precisa explicar muito. Às vezes, uma palavra basta.
E se você conhece alguém que entenderia esse silêncio, compartilhe.
Algumas histórias não pedem voz alta.
Mas pedem para não ficarem sozinhas.


Que desafio interessante, convidar aos comentários com um tema e textos geram choques que promovem o silêncio.
O texto todo está ótimo. Na intencionalidade de dar um soco na cara.
Mas as frases que ela não precisa ouvir quando está no chiqueiro... essas me arrepiaram e viraram as tripas.
Se o "terror" não analisar o conteúdo social ele é só mais um romance água com açúcar. Teus contos NUNCA são água com açúcar!
Parabéns, gostei muito do conto, de verdade! 👏