Sobre o efêmero
O que, afinal, é o efêmero?
Aquilo que passa — rápido demais para ser compreendido, mas intenso o suficiente para deixar marca.
É a paixão adolescente que, aos quinze anos, parece definitiva, até que quinze dias depois se dissolve sem cerimônia — como um príncipe que nunca existiu, apenas parecia existir…
É também o instante breve que nos atravessa e, mesmo assim, permanece.
Há algum tempo venho pensando nessas coisas que passam. Ou melhor: nessas coisas que parecem passar.
Ao longo dos meus 38 anos, perdi a conta de quantas vezes ouvi a frase: “calma, isso passa.”
Dizem isso como quem oferece consolo. Como se o tempo fosse uma borracha eficiente.
Mas nem tudo se apaga.
Quando eu era criança, voltando da escola, encontrei uma pomba no chão. Não era um daqueles pombos urbanos que aprendemos a evitar — era uma rolinha, pequena, quase delicada.
Parecia apenas ferida.
Na minha ingenuidade, quis ajudá-la.
Cutuquei seu corpo com um graveto, esperando alguma reação. Não houve.
Virei-a.
E então vi.
Havia vermes devorando sua carne.
Aquele foi o meu primeiro contato consciente com a morte — não como ideia, mas como processo. Como decomposição. Como destino inevitável do que é vivo.
Fiquei ali, criança, tentando entender o que não tinha linguagem para compreender.
Em casa, perguntei à minha mãe por que havia “bichos” dentro da pombinha.
Ela respondeu com a objetividade que só os adultos despreparados têm:
— Ela morreu. Isso acontece com todo mundo.
Não houve explicação. Só um veredito.
Pouco depois, comecei a assistir filmes de terror — entre eles, Sexta-Feira 13. Quando o caixão de Jason Voorhees é aberto, lá estavam novamente os vermes, agora acompanhados de insetos grotescos.
A ficção apenas confirmou o que eu já tinha visto na vida real.
E, como toda criança faz, eu conectei os pontos da pior maneira possível:
um dia eu vou morrer — e serei devorada.
Esse pensamento me perseguiu por dias. Dois, talvez. Intensos o suficiente para parecerem eternos.
Depois… passou.
Como dizem os adultos.
Passei a ignorar a morte com a mesma facilidade com que a descobri. A ideia de cremação, apresentada depois, resolveu o problema de forma quase técnica. E o medo se dissipou.
Foi efêmero.
Ou foi?
Durante anos, não pensei mais nisso — até que, aos quinze, vi uma criança numa praça em Santa Bárbara d’Oeste cutucando uma pomba morta com um graveto de algodão-doce.
E tudo voltou.
É assim que o efêmero opera: ele não desaparece. Ele se recolhe.
Fica à espera de um gatilho banal — uma imagem, um gesto, um detalhe — para emergir com a mesma força de antes.
Memórias que julgávamos irrelevantes retornam como pequenos estilhaços de consciência. Às vezes não eram importantes. Às vezes foram apenas suportáveis. Mas estavam lá, intactas, aguardando.
Nos últimos dias, voltei a pensar nessas ocorrências mínimas.
Um sorriso trocado no meio de um ônibus lotado, num dia qualquer.
Hoje, uma senhora idosa me olhou e sorriu. Eu sorri de volta. Nada foi dito. Ela desceu no terminal, apoiando-se na bengala, e seguiu lentamente em direção à roleta.
No meio de rostos fechados e pressa acumulada, aquele gesto rompeu a superfície do dia.
E ficou.
Assim como ficou a imagem da minha família à beira-mar. Eu, sentada sob o guarda-sol, observando de longe: meu pai, meus irmãos, minha mãe — e minha irmã mais nova, na época com seu 1 ano de vida, descobrindo o mar como se fosse a primeira invenção do mundo, sorrindo com seus dois dentes recém-nascidos.
Quanto tempo durou? Dez minutos? Talvez menos.
Mas há coisas que não dependem da duração para se tornarem permanentes.
Um dia, naquele mesmo lugar, essa cena não será mais presente — será lembrança. E, inevitavelmente, será saudade.
Então talvez o erro esteja na palavra.
O efêmero não é aquilo que desaparece.
É aquilo que não permanece no tempo — mas permanece em nós.
Quem disse que o que passa, de fato, vai embora?


Cada palavra enche de sentido as efemeridades da vida!! Muito bom! 🪻